sábado, 11 de outubro de 2014

Nascer


Mãe!

Que verdade linda

O nascer encerra: 

Eu nasci de ti,

Como a flor da Terra!

 

Poema de Matilde Rosa Araújo

in O livro da Tila

Ilustração de Eszter Schall 

 

 

 

 

 

 

 

 


sábado, 20 de setembro de 2014

Uma história de dividir



 
Um divisor dividia
muitíssimo devagar.
A divisão bem podia,
dizia ele, esperar.

O dividendo, mais lesto,
não podendo perder tempo,
dia a dia ia perdendo
a paciência e o resto.

E, encarando o amigo,
falava-lhe duramente:
"Não posso contar contigo,
és um inquociente!"


Poema de Manuel António Pina
in Pequeno livro da desmatemática

Ilustração de Eric Carle

terça-feira, 19 de agosto de 2014

Fundo do mar


 
No fundo do mar há brancos pavores,
Onde as plantas são animais
E os animais são flores.

Mundo silencioso que não atinge
A agitação das ondas.
Abrem-se rindo conchas redondas,
Baloiça o cavalo-marinho.
Um polvo avança
No desalinho
Dos seus mil braços,
Uma flor dança,
Sem ruído vibram os espaços.

Sobre a areia o tempo poisa
Leve como um lenço.

Mas por mais bela que seja cada coisa
Tem um monstro em si suspenso.


Poema de Sophia de Mello Breyner Andresen
in Poesia
Ilustração de Nicolleta Ceccoli



quinta-feira, 24 de julho de 2014

A sombra quieta




Era uma vez uma sombra
que não parava de estar quieta.
Quanto mais quieta estava
mais o pobre corpo
se mexia
e saltava, esbracejava, corria.
Tomado pelo medo,
o corpo acabou por fugir
daquele sinistro lugar.
Nunca mais ninguém o viu.
E a sombra?
Ainda lá está.
Ali, naquele lugar.


Poema de João Pedro Mésseder
in Pequeno livro das coisas 

ilustração de Gémeo Luís

segunda-feira, 21 de julho de 2014

A erva daninha


 

Sou uma erva daninha.
Nem princesa, nem rainha.

Não tenho eira nem beira.
Nem ninguém que me queira.

Comigo ninguém se importa.
Todos me querem ver morta.

Sei que sou amaldiçoada.
porque não sirvo pra nada.

Mas a culpa não é minha,
de ser uma erva daninha.

Inventaram o herbicida,
pra me complicar a vida.

Mas isto não fica assim.
Vamos ver quem ri por fim.


Nem princesa nem rainha.
Sou uma erva daninha.





Poema de Jorge Sousa Braga
in Herbário

Ilustração de Iela Mari


quarta-feira, 28 de maio de 2014

A aranha


Essa peluda menina
escondida à esquina do tecto
só desce alta noite quando
todo quarto está quieto.
Suspensa da sua teia
fica ao espelho balouçando.
repisando a mesma ideia:
“Meu Deus, serei linda ou feia?”


Poema de Violeta Figueiredo
Ilustração de Nicoletta  Ceccoli

terça-feira, 11 de março de 2014

Sapatos

Sapatos aos quadrados
sapatos aos bocados
sapatos apertados
sapatos tresloucados.

Sapatos encharcados
sapatos rasgados
sapatos cortados
sapatos esmigalhados.

Sapatos estragados
sapatos arranjados
sapatos usados
sapatos amuados.

Sapatos molhados
sapatos riscados
sapatos cortados
sapatos despejados.

Sapatos  e mais sapatos
por todo o lado.
Debaixo da cama,
dentro do armário,
em cima do telhado.

Sapatos, sapatinhos, sapatões,
para todas as ocasiões.



Poema de Ana Ramalhete
Ilustração de Madalena Matoso

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

O que faz a minhoca

Sem esforço e sem guerra,
minhoca de anéis suaves faz
na terra o que no céu fazem as
aves: abre espirais incompletas
para todo o sempre secretas.


Poema de Violeta Figueiredo
in Fala Bicho
Ilustração de Carll Cneut